Muito Prazer

Quando eu tinha uns seis meses de idade, ele veio pra Londrina, me pegou no colo e tirou uma foto comigo, que eu tenho guardada até hoje nas minhas coisas. Quando eu cresci um pouquinho, a minha mãe me mostrava e dizia "olha, esses são os seus primos de Curitiba". Ele deve ter odiado a cidade, porque nunca mais voltou. E também nunca mais ouvi falar muito dele, salvo em reuniões de família, nas quais sempre se pergunta de todo mundo pra todo mundo. O fato é que ele era até então um primo quase que desconhecido (a minha família tem dessas coisas), até que, esta semana, ele me adicionou no Orkut. E não é que ele existe mesmo?
Descobri que ele não tem mais nada a ver com aquele menino da foto, vestido de moletom cinza, sentado na calçada da casa da minha mãe. Descobri que ele escreve, e muito bem (eu já tinha ouvido burburinhos a respeito, mas nunca havia lido nada dele), que é comentarista de futebol, cinema e teatro em Curitiba, e que ele também tem um blog, o Craques e Caneladas além do Rádio e TV Tusquinha



Só a internet mesmo para nos permitir esses encontros.


 

The hills are alive



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Chego para trabalhar hoje e na porta da loja, pendurados numa sacolinha de plástico com o meu nome, arriscando serem furtados, encontravam-se dois pães de queijo gigantes do Pão Francano e um suplemento do Estadão com os seguintes dizeres:

"A NOVIÇA REBELDE: Antiga Casa da Família que inspirou o filme vai virar hotel em setembro"

E eis que, de repente, não mais que de repente, fez um sol escaldante dentro de mim.

Salzburg: Aguarde notícias minhas ano que vem. Hohoho.


 

Pra Maeve

Eu queria voltar à infância, para dentro de um navio imaginário feito de sofá de sala onde você era a capitã, e cantava a Lenda das Sereias Rainhas do Mar na proa, de canga e oclão. Eu queria brincar de casinha, com você sendo a amiga de quarentena, que ficava lendo gibi na cama enquanto se recuperava do parto. Eu queria ouvir a Sra. Smith cantando Diamonds in the Sky, a Dirce reclamando do Mané, e a avó da Aline, que, pigarreando sempre, pedia um maço de Minister. Eu queria a sua voz de Patrícia Travassos me acordando em preguiçosos domingos para ir para a piscina e fazer apresentações de circo fictícias dentro da água. Eu queria ter passado mais tempo no seu apartamento, ouvindo as histórias mais engraçadas do mundo e comendo as comidas mais fantásticas, vestindo roupas exóticas e tomando sucos revitalizantes de melão com água com gás (já tentei fazer, mas o seu é muito melhor). Eu queria rir das receitas do livro antigo da Dona Benta, que perderam a graça depois que você foi. Eu queria colorir de novo os encontros de família com o teu sorriso e o seu jeito de jogar o cabelo para trás, contando piadas (sempre inoportunas, como diria o Seo Mendonça).Eu queria te abraçar tão forte hoje, e desejar que estivesse aqui de volta, do nosso lado. Porque eu não aprendi ainda a viver com saudade. Porque nos falta um pedaço. O melhor deles. Eu te amo. Parabéns.


 

Faxina = Terapia?

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Quando você faz faxina em casa você sente também que organizou e limpou as coisas dentro de você? Eu sempre me sinto assim. Com os sacos de lixo vão-se também as neuras, as raivas, as angústias, as palavras entaladas na garganta. É como se organizar a casa ajudasse também a colocar as idéias e os sentimentos em ordem. Será que uma coisa tem mesmo relação com a outra? Se tiver, então tá explicado porque de repente a bagunça volta, e você não faz idéia do porquê de ter guardado tanta quinquilharia nas gavetas, daquele papelzinho inútil continuar ali e de você nunca jogar fora aquele papel do estacionamento que está dentro da sua bolsa há séculos: é alguma coisa do lado de dentro, que tá precisando de uma boa arrumação.


 

Meu pai

Ele é o segundo filho mais novo de uma família de 9 mulheres e 2 homens. Desde cedo, teve que trabalhar na escola de datilografia do meu avô, que era da polícia. Depois arranjou emprego fácil, já que sabia datilografar com rapidez. Sempe gostou de música. Aos 17, conheceu a minha mãe, na igreja, e oferece-lhe um emprego, na construtora onde trabalhava. Ele era chefe dela, e mandava bilhetinhos escritos à máquina deixando ela sair mais cedo para estudar. Aos 21, se casaram. Ele era do tipo sério, que apreciava as formalidades da vida, diferente dela. Aos 23, tiveram o primeiro filho. Depois, outro. Parte da seriedade dele se foi quando eu nasci, dez anos depois, conta a minha mãe: "Pra você, ele contava histórias e fazia até as vozes". E eu me lembro disso. Ele sabia de cor a história da Branca de Neve, e a da Festa no Céu, as minhas preferidas. Assistia Mary Poppins infinitas vezes comigo, e me ensinou a dizer supercalifragilisticexpialidocious. Aos 4 anos ele me ensinou a ler. Me deu de presente o meu primeiro livro, o "Meu pé de Laranja Lima". Eu ouvia música com ele na sala, e a cada noite, ele me apresentava um intérprete diferente, e cantava "João e Maria" para eu dormir. Corrigia os meus trabalhos de escola, muitas vezes fazia-os para mim. Passávamos horas em livrarias, sebos e bancas de revista, e voltávamos cheios de coisas novas. Quando eu fiz 7 anos, ganhei dele " A Noviça Rebelde".Ele gravou para mim da TV, dublado, cortando os intervalos. Assisti 68 vezes, contadas através de risquinhos feitos num papel colado na capa do VHS. Depois, um dia, ele comprou o original, legendado. Anos depois eu ganharia o DVD. E depois a caixa da edição especial de aniversário. Eu fazia filmes, com as minhas amigas, e ele filmava, e depois editava, com trilha sonora e tudo. Aos domingos, assistíamos filmes em preto e branco, e ele dormia nos primeiros minutos. À noite, líamos Mistério Magazine, e comentávamos depois, no café da manhã. Dele, eu herdei a instrospecção, talvez um pouco da urgência, do perfeccionismo, do "é assim e pronto", do "tá errado". A minha mãe chama isso de Mendoncite. Mas eu gosto. A gente se fala por msn e e-mail todos os dias. Longos textos,sempre. Ele cantava sempre a mesma música para eu acordar, e me levou café na cama todos os dias até eu me casar. Hoje, ele traz pães de queijo e pendura numa sacola na porta do meu apartamento, aos domingos. Traz também o jornal. E às vezes ele me liga, avisando que vai passar algum filme que gostamos na televisão: "Só pra você saber"- ele diz.
Pai, "eu te amo" é muito pouco. Supercalifragilisticexpialidocious.





 

Lindo

Fim de tarde, pôr do sol, vento na janela, chá de hortelã e Jane Austen.


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Da série Textos Antigos de Cadernos Esquecidos

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Te espero num imperceptível espaço de tempo entre um minuto e o segundo seguinte, naquele vão que criávamos entre os dias, no correr das horas que paravas com as mãos. Me acharás escondida nas várias músicas que tornamos nossas, dançando por entre lembranças e acordes, ouvindo tua voz cantando em meus ouvidos. Me escondo nas meias palavras, desenterro os risos perdidos para sempre, cravados nas paredes do teu quarto, vivo de novo o medo e redesenho teus contornos para nunca mais os esquecer. Te espero com flores secas e canções antigas, me visto de antes, arrumo a tua casa e me perfumo de ti, para que me reconheças. Ali viveremos o eterno, o que nunca pudemos, o que não deveríamos,o que não pôde ser. Ali, nos impregnaremos de nós mesmos, e cumpriremos as velhas promessas que tivemos que deixar para trás. E não haverá relógios ou calendários. Não haverá nada proibido, nem pecados, culpas ou arrependimentos. Seremos somente nós, e mais nada, e poderemos, enfim, nos esquecer de que um dia, o tempo cometeu um engano, e, pedindo desculpas pelo inconveniente, te levou pra longe de mim.


Eu gosto desta imagem porque na minha visão sempre distorcida e surrealista das coisas, a moçoila em questão ora segura um travesseiro, ora um homem de camisa branca...sem cabeça (mas tudo bem, bobagem)


 

Ansiedade

Só por hoje
porque não há outro jeito de viver senão aqui e agora



por Patrícia 'Ticcia' Antoniete
de Porto Alegre [RS]
[31/07/2008]


Só por hoje eu vou ler o livro sem pensar em como ele termina, em quantas páginas tem, se os capítulos são compridos, se a mocinha vai ser feliz para sempre ou não. Só por hoje eu vou ler a história e vou escrevê-la ao mesmo tempo, uma palavra depois da outra: luz, céu, boca, sono, pescoço, nuvem, água, língua, cristal.

Só por hoje meus pés vão estar aqui nessa pedra e nesse chão sem pretenderem saber em si o resto da estrada. Só por hoje eu não vou nem tentar adivinhar o resto da estrada. Só por hoje eu vou compreender que a estrada adiante ainda nem existe para que eu pudesse saber dela. Só por hoje eu vou ser miúda e pequena, ínfima e minúscula e vou caber nesse espaço todo ao meu redor, onde podem se fazer braços e abraços e onde pode haver uma casa.

Só por hoje não haverá transbordamento e vazante, serei eu e meu recipiente, um feito para o outro, forma e conteúdo, sem dúvida e sem medidas, sem risco de explosão. Só por hoje rir será o mais sublime encantamento possível, mais que as lágrimas, mesmo as de alegria. Só por hoje eu vou saborear a gargalhada trilhando meu corpo, pelos meus lábios, minha língua, estampada em meu rosto, nos meus olhos, na minha barriga, só por hoje vou deixar que ela me faça solta e leve sem aquele patético pudor incompreensível que sempre me continha.

Só por hoje eu não vou ter vergonha alguma do que eu quero, do que eu gosto, do que eu sou, do corpo que tenho, das coisas que eu não sei e só por hoje vou querer, gostar, ser, viver, gozar e saber só do que importa, satisfaz, faz feliz, só por hoje. Só por hoje eu vou me permitir sentir que não falta nada, que tudo o que eu preciso e quero está bem aqui, em mim, e não vou temer que amanhã tudo isso se perca, sucumba, feneça, suma, porque só por hoje eu vou entender que ao temer, já fiz o que existe hoje se perder.

Portanto, só por hoje eu vou viver tudo de tudo aqui e agora, nos mínimos e nos máximos, no tempo presente para que quando o amanhã virar hoje, ele seja exatamente igual a ontem, ou ainda melhor.



*Patrícia "Ticcia" Antoniete é uma advogada portoalegrense dessincronizada com incontinência literária que já foi Megera e hoje é Mme. Mean




 

Veio a calhar...

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Aessedeefegês...





Eu sempre quis ser jornalista. Digo, sempre não, mas desde que eu comecei a pensar numa profissão séria para a minha vida. Na verdade me lembro exatamente do momento em que eu resolvi que eu seria jornalista. Num domingo à tarde, depois do almoço, meu pai costumava colocar filmes em preto e branco para assistir um pedaço e tirar um cochilo depois. Eu devia ter uns 12 anos. Naquele domingo, o filme em cartaz na nossa sala de TV era A Primeira Página, de 1974, com a dupla Jack Lemmon e Walter Matthau. O filme se passa numa redação de jornal, e a atuação dos atores é ótima. Mas o que mais me chamou a atenção foi logo o início, que mostra o funcionamento completo de um jornal da época, com máquinas de escrever,xícaras de café, linotipos e cigarros. Achei aquilo fantástico, e quis, no mesmo instante, fazer parte daquele universo estereotipado dos jornalistas. A minha família também tem alguns jornalistas, mas isso não me influenciou, pelo contrário, várias vezes ouvi deles que o jornalismo é uma profissão ingrata e que não se ganha dinheiro com isso. Enfim, não levei muito em consideração. O meu avô era professor de datilografia, e todos os seus 12 filhos sabem datilografar com rapidez e perfeição em máquinas de escrever. Na minha casa tinha uma Remington velha do meu avô, e eu pedi para o meu pai me ensinar a datilografar. Já tínhamos computador, mas a graça era ser jornalista com máquina de escrever. Aprendi, mas até hoje não tenho forças para usar o dedinho. Com 17 anos, prestei vestibular para jornalismo, mas não passei. Fui fazer marketing e me formei. O meu pai achava que fazendo marketing eu poderia escrever sem ser bicho-grilo. Outra visão estereotipada. Fiz, e, claro, não era o que eu queria. Fui prestar outra vez e passei. Fiz três anos, fui trabalhar em televisão e me encontrava exatamente onde eu queria, quando tive que parar. Como não passei na UEL (nem tentei na segunda vez), me c asei e ganhei várias contas que antes eu não tinha, tranquei a matrícula e deixei jornalismo em stand by. Mas hoje, quando meu pai veio me mostrar o DVD que tinha comprado – A Primeira Página – percebi que a minha vida está ali, pausada, entre uma página e outra,entre goles de café e textos rabiscados, e eu preciso voltar com urgência para ela.


 

Just Like I Should


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Fecho todas as janelas, todas as portas, cada vão de passagem de tudo o que é para o que foi. Cadeio- as como se nunca mais pudesse abrir, e fujo das sombras que carregam as pesadas memórias. Para não correr o risco, martelo pedaços de madeira pintadas de tinta nova, que cobrem as lágrimas e os soluços. Lá fora habitam os beijos não dados, as mini-certezas que eu nunca tive, as esperanças amarrotadas em folhas de papel escritas com a tua letra. Lá fora, moram tuas promessas e minhas expectativas, teus vários nãos e o meu sim, único, sozinho, procurando nos cantos um resto do teu cheiro. Lá fora dorme sedada a vida que parimos e que não vivemos, enrolada de frio num edredom de mágoas e descrenças. Em tudo ateio fogo, para que nada volte, nada seja de novo, para que não haja mais sombra, nem cheiro, para que se despedaçem as tuas frases como flores que já não quero que me enfeitem mais. Viro as costas para os sonhos que se foram e deito-me refeita em minha cama de bordados brancos e páginas limpas. E mesmo assim, não me surpeendo se acordar de noite e ir descalça, pé ante pé até a porta, juntar as cinzas do que restou e guardar, com todo cuidado, dentro do lenço que um dia me destes para chorar.


Clau, esse post foi escrito há muito tempo (nem era um post, mas sim um amontoado de textos dentro de um caderno), mas gosto dele, e resolvi publicar para vc ler...


 

Coisas de Casal



Despertador, abraço, bom dia, chuveiro. Só você mesmo pra me achar bonita com essa cara. Sabonete de mel e Nina Simone cantando ao fundo. Toalha cheirosa, frio, roupão e vontade de voltar para o edredom. Cheiro de torrada quentinha e barulho de cafeteira. Abraço. Tá quase pronto, com geléia de amora, que você gosta. Me dá um abraço de novo. E agora um beijo. Deixa eu terminar me de arrumar que eu tô atrasada. O cheiro é irresistível. Vem tomar café comigo enquanto a gente assiste ao jornal. Jornal? Ah não, vamos ouvir mais Nina Simone. My baby just cares for me. Lembra dessa música? Aham. Daquele dia da ventania né? É. Adoro o seu café com leite. Vem, vamos dançar. Não, to atrasada. Só um pouquinho! Tá, vai. Adoro esse piano. Eu também. Vamos ficar em casa hoje? Você pode e eu não. Aliás, tenho que ir, são dez pras oito. Ne me quitte pas... Me dá outro beijo? Só mais um. Vai chamando o elevador enquanto eu visto o casaco? Então tá, beijo, até a noite. Compra um gel de cabelo pra mim se você lembrar? Uhum. Não esquece de devolver o filme, tá no porta-luvas. Bozzano tá? Tá. Eu te amo. Eu também. Ainda somos namorados né? Claro que sim. Beijo, bom trabalho. Amor, azul. Azul o que? O gel de cabelo.Não esquece.


 

I dream of Spring


(k.d. lang - I dream of spring)

Queria agora sentar na varanda da casa da minha mãe, no banquinho forrado de chita colorida para tomar sol e ler. Queria o biscoito de polvilho que o meu pai compra no Pão Francano, especialmente feito para ser molhado numa xícara de café. O cheiro de pinhão quentinho, o Mário para descascá-los para mim e dar risada. O André descendo as escadas, sonolento,de moletom e meia, meu pai lavando os discos e ouvindo Tea for Two. A minha mãe lendo preguiçosamente no sofá amarelo e branco, e tomando um cinzano para abrir o apetite. O cheiro da essência de capim limão que ela coloca nas luminárias com algodão. O frio que faz na salona, as violetinhas no janelão de entrada, e as flores de plásticos plantadas em vasos de terra de verdade. O Fabiano brincando com a Paloma, a Jordana contando as histórias maravilhosas dos seus gibis. Minha vó a fazer bolinho de pinga e gorros de lã para mim, no sol, para esquentar as pernas. A ordinariedade toda de uma manhã fria de domingo.



(Divagações de uma quarta-feira de telefones tocando sem parar e pessoas em volta à beira de um ataque de nervos)


 

Diálogos Impagáveis

Em locais como salões de beleza, eu costumo me esconder dentro de mim mesma e esperar passar. Prefiro assim. Só vou porque sou obrigada pela consciência.
De repente, de dentro do meu esconderijo secreto, escuto o seguinte diálogo :

MANICURE:
- Hoje eu preciso sair mais cedo porque tenho que trocar a bolsa da minha mãe.
CLIENTE SIMPÁTICA:
- Ah é? Que coincidência! Eu também vou trocar a da minha hoje. Eu dei uma bolsa para ela, linda, de dia das mães, mas a alça fica caindo e ela não consegue usar. Vou sair daqui, pego ela e vamos ao shopping.
MANICURE:
- Hmmm..
CLIENTE SIMPÁTICA:
- Você também comprou a bolsa da sua mãe no shopping?
MANICURE:
- Não...
CLIENTE SIMPÁTICA:
- No centro?
MANICURE:
- Não...Na Casa dos Hospitais
CLIENTE SIMPÁTICA:
- Ahn?
MANICURE:
- É..uma bolsa de colostomia...é que hoje sou eu quem tem que trocar. A gente se reveza, sabe, os filhos...

É por essas e outras que diante de estranhos sempre prefiro o silêncio.


 

Inconsistências

Porque me rasgo, fico tonta, tenho ódio e amor,porque me embriago, me corto, porque sangro, porque sinto pena de mim mesma,porque me arrasto pelas paredes em plena angústia às vezes. Porque grito e não me escuto, porque nunca tive, porque lembro, porque já fui, porque vejo, imagino, porque ando pela casa em círculos. Porque eu sei, porque eu sinto, porque dói, porque me machuca, porque me atrapalha, porque atrasa o meu relógio e me faz lenta e torpe. Porque eu vi, porque você nunca sabe, porque eu ainda tenho, na gaveta, porque às vezes some e depois aparece. Porque sim, porque não, porque eu eu quero, simplesmente. Por que? Não sei.


 

Na Cabeceira

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"Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

Eu só preciso lhe dizer de novo essas coisas simples antes de abordar questões que, não faz muito tempo, têm me atormentado. Por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? Por que, em Le Traître, passei uma falsa imagem de você, que a desfigura? Esse livro deveria mostrar que a minha relação com você foi a reviravolta decisiva que me permitiu desejar viver.
"
Trecho do livro




 

Do que vale a vida


Hoje o meu pai me chamou pra tomar uma cerveja. Eu tinha acabado de entrar em casa, depois de ininterruptas dez horas de trabalho, duas reuniões, novas metas, três contas me esperando na portaria e um pequeno cãozinho sozinho no apartamento, ávido por atenção, carinho e comida.
- Vamos tomar uma cerveja, só nos dois?
Antes de responder, pensei no quanto eu estava cansada, nas louças sujas na pia, no meu sofá marrom e, claro, na minha ãnsia diária pelo meu canto e sossego.
- Se você não quiser deixamos para outro dia...
E então percebi ali o instante. O instante em que uma simples atitude pode transformar uma noite corriqueira num momento agradável. O instante em que passamos de meros espectadores da vida, sentados em frente à tv, para atuantes, protagonistas da nossa própria busca pelo "ser feliz". Eu não tomo cerveja, e nem estava com fome, muito menos com disposição. Mas, meia hora depois, eu já estava no carro com o meu pai, procurando um lugar legal pra ir.
Agora, chegando em casa, depois de comer, beber (o meu paladar não é resistente a caipiras de saquê e filé com molho mostarda) e me divertir muito, eu percebo quanto tempo eu perco (e muitos devem compartilhar da mesma opinião) descansando de um dia exaustivo de trabalho para...mais um dia exaustivo de trabalho. Quantos "nãos" falamos para um amigo que convida para um cinema, para um fim de tarde que convida para uma caminhada, para pequenos instantes como esse, que são tão bons e fazem a diferença na nossa vida.
O meu pai agora sabe muito bem disso. Depois de uma vida de formalidades, hoje ele sabe ser casual. Aprendeu que domingos à noite não existem somente para nos prepararmos para a segunda-feira, que é uma delícia sair descalço na grama, que ele pode andar de ônibus só para observar as pessoas, e que, às vezes, é preciso relaxar. E como é bom conversar com alguém que já tem essa serenidade, que já passou por um bom pedaço da vida e sabe olhar para trás com um sorriso tranquilo, separando o que é realmente importante daquilo que é banalidade, e só nos faz perder tempo.
A louça continua suja na pia, e me olha com um quê de acusação. Eu, com um leve sorriso no rosto, simplesmente passo por ela fingindo que não é comigo. Ela não vai se importar se eu deixar pra depois.




 



Ela tem 61 anos. Ela sai de segunda a segunda, me dá um trabalho só. Tem um grupinho de amigos baladeiros, chega em casa de madrugada, me faz ficar em pânico quando não atende o celular. Me preocupo, claro. Ouve música alto, gosta de dar festas, dançar, não sei como os vizinhos não reclamam. Fora que tem uma beleza invejável, todos comentam de seus lindos olhos verdes, tão diferentes dos meus. Mas genética é assim mesmo. Ah, ela é loira. Natural, claro. Se expõe aos sol sempre que pode, pra ganhar esse bronzeado aí, ao contrário de mim, que sou avessa a essas coisas, vide a minha cor. Vivo me preocupando se ela está ou não usando o protetor.Ela gosta de tudo que é moderno e novo, enquanto a minha casa tem quês de vintage espalhados por todo canto. Ela me convida pra sair, mas eu estou sempre cansada, meu trabalho me consome demais. Além disso, eu não tenho mais idade para compartilhar dos papos, acho que vou me sentir um peixe fora d´água. No meu carro toca Nina Simone, Billie Holiday, Chico, Elis... No dela toca umas coisas estranhas e barulhentas, coisas que gente da minha idade não dá mais conta de ouvir. Ela debocha das minhas manias, dos meus horários, da minha formalidade toda, e sorri pra vida, porque sabe viver.


Mãe, quando eu crescer, eu quero ser igual a você.


 

Inquietudes

De repente a angústia do não saber colore o álbum do dia de cinza e dúvidas. No mar dos teus olhos verdes nadam dois peixes pretos, na tranquilidade de sempre, internando a tua ansiedade pra si só. Para mim, é como se alguém tivesse apertado o pause do dia, que se estagna até que tu saias, até que tu saibas, até que tudo se revele. É como se eu não conseguisse mais respirar desde então, como se o corpo todo ficasse na espera de uma resposta para poder continuar a viver. Enquanto isso, o tempo tece os minutos num ritmo lento e dolorido, numa quase imobilidade. E eu quero logo a próxima cena. Quero esta noite de presente, embrulhada no sorriso tranquilo da certeza de estar tudo bem.


 

Meus pensamentos tem o gosto das coisas que já foram, de cheiros conhecidos, escondidos atrás das portas e revelando-se por entre os vãos da memória. Entre os buracos do dia existe uma passagem secreta onde procuro me esconder, de onde escapam lembranças, naufragam sonhos e bóiam idéias não concretizadas. Ali enredam-se os acontecimentos, as coincidências, os desencontros, como teias de aranha por entre lugares abandonados. Em algum lugar ecoam as músicas que eu ouvi um dia e hoje não consigo mais, misturando-se ao crepitar das cartas que foram escritas e dos pequenos papeizinhos de promessas não cumpridas. No ar, os cheiros de um dia trazem à vida coisas que há muito tempo morreram. Pelas janelas passam as pessoas de antes, os lugares de sempre e os de nunca mais. Atrás de mim, alguém repete mil vezes uma velha frase dita, que um dia causou-me alegria, mas depois foi guardada na gaveta das palavras que eu queria esquecer. Coisas que eu desaprendi a ver, espelhos que refletem rostos dos quais eu não me recordava. As paredes tem olhos de cores estranhas, cores que dóem e entornam saudades, abrindo os meus olhos para o que eu não quis enxergar. Revestida de passado, a maré sobe e desce em mim,lavando- me de tudo o que é velho, e me veste de branco e flores. E a ressaca leva com ela tudo o que podia ter sido e não foi, tudo que foi sem precisar ter sido, e o que ficou é o que realmente me importa.


"Era disso que eu tinha medo.
Do que não ficava pra sempre"

Era uma vez- Antonio Bivar


 
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