Só por hoje
porque não há outro jeito de viver senão aqui e agora
por Patrícia 'Ticcia' Antoniete
de Porto Alegre [RS]
[31/07/2008]
Só por hoje eu vou ler o livro sem pensar em como ele termina, em quantas páginas tem, se os capítulos são compridos, se a mocinha vai ser feliz para sempre ou não. Só por hoje eu vou ler a história e vou escrevê-la ao mesmo tempo, uma palavra depois da outra: luz, céu, boca, sono, pescoço, nuvem, água, língua, cristal.
Só por hoje meus pés vão estar aqui nessa pedra e nesse chão sem pretenderem saber em si o resto da estrada. Só por hoje eu não vou nem tentar adivinhar o resto da estrada. Só por hoje eu vou compreender que a estrada adiante ainda nem existe para que eu pudesse saber dela. Só por hoje eu vou ser miúda e pequena, ínfima e minúscula e vou caber nesse espaço todo ao meu redor, onde podem se fazer braços e abraços e onde pode haver uma casa.
Só por hoje não haverá transbordamento e vazante, serei eu e meu recipiente, um feito para o outro, forma e conteúdo, sem dúvida e sem medidas, sem risco de explosão. Só por hoje rir será o mais sublime encantamento possível, mais que as lágrimas, mesmo as de alegria. Só por hoje eu vou saborear a gargalhada trilhando meu corpo, pelos meus lábios, minha língua, estampada em meu rosto, nos meus olhos, na minha barriga, só por hoje vou deixar que ela me faça solta e leve sem aquele patético pudor incompreensível que sempre me continha.
Só por hoje eu não vou ter vergonha alguma do que eu quero, do que eu gosto, do que eu sou, do corpo que tenho, das coisas que eu não sei e só por hoje vou querer, gostar, ser, viver, gozar e saber só do que importa, satisfaz, faz feliz, só por hoje. Só por hoje eu vou me permitir sentir que não falta nada, que tudo o que eu preciso e quero está bem aqui, em mim, e não vou temer que amanhã tudo isso se perca, sucumba, feneça, suma, porque só por hoje eu vou entender que ao temer, já fiz o que existe hoje se perder.
Portanto, só por hoje eu vou viver tudo de tudo aqui e agora, nos mínimos e nos máximos, no tempo presente para que quando o amanhã virar hoje, ele seja exatamente igual a ontem, ou ainda melhor.
*Patrícia "Ticcia" Antoniete é uma advogada portoalegrense dessincronizada com incontinência literária que já foi Megera e hoje é
Mme. Mean