Meus pensamentos tem o gosto das coisas que já foram, de cheiros conhecidos, escondidos atrás das portas e revelando-se por entre os vãos da memória. Entre os buracos do dia existe uma passagem secreta onde procuro me esconder, de onde escapam lembranças, naufragam sonhos e bóiam idéias não concretizadas. Ali enredam-se os acontecimentos, as coincidências, os desencontros, como teias de aranha por entre lugares abandonados. Em algum lugar ecoam as músicas que eu ouvi um dia e hoje não consigo mais, misturando-se ao crepitar das cartas que foram escritas e dos pequenos papeizinhos de promessas não cumpridas. No ar, os cheiros de um dia trazem à vida coisas que há muito tempo morreram. Pelas janelas passam as pessoas de antes, os lugares de sempre e os de nunca mais. Atrás de mim, alguém repete mil vezes uma velha frase dita, que um dia causou-me alegria, mas depois foi guardada na gaveta das palavras que eu queria esquecer. Coisas que eu desaprendi a ver, espelhos que refletem rostos dos quais eu não me recordava. As paredes tem olhos de cores estranhas, cores que dóem e entornam saudades, abrindo os meus olhos para o que eu não quis enxergar. Revestida de passado, a maré sobe e desce em mim,lavando- me de tudo o que é velho, e me veste de branco e flores. E a ressaca leva com ela tudo o que podia ter sido e não foi, tudo que foi sem precisar ter sido, e o que ficou é o que realmente me importa.
"Era disso que eu tinha medo.
Do que não ficava pra sempre"
Era uma vez- Antonio Bivar
Publicado em 27 de março de 2008 às 10:20 por fernandamendonca