Jokebox

Meus pensamentos tem o gosto das coisas que já foram, de cheiros conhecidos, escondidos atrás das portas e revelando-se por entre os vãos da memória. Entre os buracos do dia existe uma passagem secreta onde procuro me esconder, de onde escapam lembranças, naufragam sonhos e bóiam idéias não concretizadas. Ali enredam-se os acontecimentos, as coincidências, os desencontros, como teias de aranha por entre lugares abandonados. Em algum lugar ecoam as músicas que eu ouvi um dia e hoje não consigo mais, misturando-se ao crepitar das cartas que foram escritas e dos pequenos papeizinhos de promessas não cumpridas. No ar, os cheiros de um dia trazem à vida coisas que há muito tempo morreram. Pelas janelas passam as pessoas de antes, os lugares de sempre e os de nunca mais. Atrás de mim, alguém repete mil vezes uma velha frase dita, que um dia causou-me alegria, mas depois foi guardada na gaveta das palavras que eu queria esquecer. Coisas que eu desaprendi a ver, espelhos que refletem rostos dos quais eu não me recordava. As paredes tem olhos de cores estranhas, cores que dóem e entornam saudades, abrindo os meus olhos para o que eu não quis enxergar. Revestida de passado, a maré sobe e desce em mim,lavando- me de tudo o que é velho, e me veste de branco e flores. E a ressaca leva com ela tudo o que podia ter sido e não foi, tudo que foi sem precisar ter sido, e o que ficou é o que realmente me importa.


"Era disso que eu tinha medo.
Do que não ficava pra sempre"

Era uma vez- Antonio Bivar

Publicado em 27 de março de 2008 às 10:20 por fernandamendonca

Comentários

  1. silvia -
    • e nesse texto as teias sao o bordado branco do seu vestido de novidades, você-iemanjá que canta, entre uma maré e outra, linhas täo lindas.
    • por isis
    • 27.Mar.2008 às 11:55 - Permalink - Reportar
    isis
    • é curioso o quanto nos remete à saudade, quando a sentimos alheia... nas sombrancelhas, no mivimento dos lábios, nas fotografias, nos filmes velhos, nas cartas, nos poemas... tudo fica mais sério porque "saudade", essa palavra portuguesa que reflete tanto a complexidade emocional dessa origem, poucos no mundo conseguem definir tão profundamente... não em palavras. porque a saudade não machuca realmente, mas a dor existe e é tão real que poderíamos colocar numa palma da mão essa ausência... essa falta... essa nostaugia que acende todas as nossas memórias emocionais, liberando uma explosão de endorfinas pelo corpo que em milésimos de segundos encontram-se com milhões de conexões cerebrais que formam uma massa impactante de NADA .que desfaz a multidão hormonal de uma imagem-cena-tempo armazenada numa memória de situações não somente de delícias, mas de todas as teias emocionais que nos formam um mosaico caotico de experimentações e tudo isso de repente se choca com o p r e s e n t e . . . . . u m m o m e n t o a é r e o e t ã o l e n t o . . . q u e n o s d e i x a t ã o l o n g e daquele pedaço NOSSO ... l o n g e .... e a gente sofre.

      "Era uma vez e eu me lembro como se fosse agora... ... era disso que eu tinha medo; do que não ficava pra sempre."
    • por Impostor
    • 27.Mar.2008 às 13:23 - Permalink - Reportar
    Impostor
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