Depois de anos sem assistir novela, eu tenho acompanhado "A Favorita". E tenho até gostado. Ainda não estou no nível de certas pessoas que só saem de casa depois que a novela acaba. Ainda não. A interpretação de atores como Mauro Mendonça, Glória Menezes, Tarcísio Meira, Lilia Cabral e Jackson Antunes é surpreendente. Mas, enfim, eu queria falar sobre a Taís Araújo. Descobri que eu não gosto dela. Não mesmo.Sem preconceito algum, não gosto dela como atriz, muito menos como apresentadora. Não sei o que é, tem algo nela que me incomoda muito. Agora, a personagem que ela interpreta, A Alicia, é trêsmilvezesmaischata. Irritante, folgada, impertinente, convencida, orgulhosa, aproveitadora, perua demais, e vá lá, pode até ser bonita, mas aquela franja que ela está usando é medonha. E ela é efusiva demais pro meu gosto, exatamente como eu imagino que seja a própria atriz, na vida real. Esses dias no cabeleireiro li uma entrevista dela dizendo que ela gosta tanto de jóias, que não fica um dia sem exibir seus diamantes e ouros. Ai. Daí pergunto: será que eu estou confundindo a atriz com a personagem? Será que ela não é nada disso na vida real? Neste caso, será que ela está interpretando tão bem que me faz ficar com raiva da Alicia e achar que a Taís também é mala assim? Será que estou me deixando levar pela novela, igual a minha avó que achou que conhecia de algum lugar o criminoso procurado do Linha Direta? (Quem ela já tinha visto era o ator que fazia a simulação). Será?
Eu odeio filme dublado. Acho cruel todas aquelas vozes forçadas, e um desprazer sem fim ser privada de ouvir a voz real dos atores. Mas esses dias, enquanto lia um livro, o Telecine Pipoca exibia "O Diabo Veste Prada", dublado. Eu gosto do filme, e já assisti várias vezes, mas nunca "em português". Deixei no canal enquanto lia, e fui ouvindo. As vozes eram péssimas. A da Meryl Streep sofrível e alta, completamente diferente do tom de voz baixo e calmo que a atriz usa para a personagem. E, de repente, escuto a seguinte frase:
"- Não é justo! Digo, você come siri, por Deus do Céu!"
E foi então que eu desliguei a televisão.
Explico:
Na cena, Andrea visita Emily no hospital, que está acidentada e brava, já que descobre que não mais irá a Paris com Miranda. Depois de semanas numa dieta rigorosa com o objetivo de ficar sequinha para a semana de moda, Emily é atropelada por um carro, e recebe a notícia de que Andrea é que fará a viagem em seu lugar, ao que ela diz:
- It´s not fair! I mean, you eat carbs for Christ's sake!
Doutor: Qual a sua idade?
Ela: 27
Doutor: Profissão?
Ela: Trabalho com Marketing e Propaganda
Doutor: Pratica exercícios físicos regularmente?
Ela: Sim, pelo menos 3 vezes por semana.
Doutor: Fuma?
Ela: Sim. Pouco.
Doutor: Você é etilista?
Ela: Não, doutor. Como eu disse, eu trabalho com marketing e propaganda.
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Num Café:
Ela (a mesma): Você vai querer um café?
Amiga: Não, não tomo café...
Ela (a mesma): Nem eu, não gosto muito.
Amiga: Não tenho costume de tomar café, na minha casa não se faz porque a minha mãe é mórmon.
Ela (a mesma): Ah, sua mãe é mórmon?
Amiga: Sim.
Ela (a mesma): Hmmm
(Silêncio)
Ela (a mesma): Mórmon é igual aquela doença que se tem alergia a leite, mas no caso se tem alergia a café, não é?
Quando eu tinha uns seis meses de idade, ele veio pra Londrina, me pegou no colo e tirou uma foto comigo, que eu tenho guardada até hoje nas minhas coisas. Quando eu cresci um pouquinho, a minha mãe me mostrava e dizia "olha, esses são os seus primos de Curitiba". Ele deve ter odiado a cidade, porque nunca mais voltou. E também nunca mais ouvi falar muito dele, salvo em reuniões de família, nas quais sempre se pergunta de todo mundo pra todo mundo. O fato é que ele era até então um primo quase que desconhecido (a minha família tem dessas coisas), até que, esta semana, ele me adicionou no Orkut. E não é que ele existe mesmo?
Descobri que ele não tem mais nada a ver com aquele menino da foto, vestido de moletom cinza, sentado na calçada da casa da minha mãe. Descobri que ele escreve, e muito bem (eu já tinha ouvido burburinhos a respeito, mas nunca havia lido nada dele), que é comentarista de futebol, cinema e teatro em Curitiba, e que ele também tem um blog, o Craques e Caneladas além do Rádio e TV Tusquinha
Só a internet mesmo para nos permitir esses encontros.
Chego para trabalhar hoje e na porta da loja, pendurados numa sacolinha de plástico com o meu nome, arriscando serem furtados, encontravam-se dois pães de queijo gigantes do Pão Francano e um suplemento do Estadão com os seguintes dizeres:
"A NOVIÇA REBELDE: Antiga Casa da Família que inspirou o filme vai virar hotel em setembro"
E eis que, de repente, não mais que de repente, fez um sol escaldante dentro de mim.
Salzburg: Aguarde notícias minhas ano que vem. Hohoho.
Eu queria voltar à infância, para dentro de um navio imaginário feito de sofá de sala onde você era a capitã, e cantava a Lenda das Sereias Rainhas do Mar na proa, de canga e oclão. Eu queria brincar de casinha, com você sendo a amiga de quarentena, que ficava lendo gibi na cama enquanto se recuperava do parto. Eu queria ouvir a Sra. Smith cantando Diamonds in the Sky, a Dirce reclamando do Mané, e a avó da Aline, que, pigarreando sempre, pedia um maço de Minister. Eu queria a sua voz de Patrícia Travassos me acordando em preguiçosos domingos para ir para a piscina e fazer apresentações de circo fictícias dentro da água. Eu queria ter passado mais tempo no seu apartamento, ouvindo as histórias mais engraçadas do mundo e comendo as comidas mais fantásticas, vestindo roupas exóticas e tomando sucos revitalizantes de melão com água com gás (já tentei fazer, mas o seu é muito melhor). Eu queria rir das receitas do livro antigo da Dona Benta, que perderam a graça depois que você foi. Eu queria colorir de novo os encontros de família com o teu sorriso e o seu jeito de jogar o cabelo para trás, contando piadas (sempre inoportunas, como diria o Seo Mendonça).Eu queria te abraçar tão forte hoje, e desejar que estivesse aqui de volta, do nosso lado. Porque eu não aprendi ainda a viver com saudade. Porque nos falta um pedaço. O melhor deles. Eu te amo. Parabéns.
Quando você faz faxina em casa você sente também que organizou e limpou as coisas dentro de você? Eu sempre me sinto assim. Com os sacos de lixo vão-se também as neuras, as raivas, as angústias, as palavras entaladas na garganta. É como se organizar a casa ajudasse também a colocar as idéias e os sentimentos em ordem. Será que uma coisa tem mesmo relação com a outra? Se tiver, então tá explicado porque de repente a bagunça volta, e você não faz idéia do porquê de ter guardado tanta quinquilharia nas gavetas, daquele papelzinho inútil continuar ali e de você nunca jogar fora aquele papel do estacionamento que está dentro da sua bolsa há séculos: é alguma coisa do lado de dentro, que tá precisando de uma boa arrumação.
Ele é o segundo filho mais novo de uma família de 9 mulheres e 2 homens. Desde cedo, teve que trabalhar na escola de datilografia do meu avô, que era da polícia. Depois arranjou emprego fácil, já que sabia datilografar com rapidez. Sempe gostou de música. Aos 17, conheceu a minha mãe, na igreja, e oferece-lhe um emprego, na construtora onde trabalhava. Ele era chefe dela, e mandava bilhetinhos escritos à máquina deixando ela sair mais cedo para estudar. Aos 21, se casaram. Ele era do tipo sério, que apreciava as formalidades da vida, diferente dela. Aos 23, tiveram o primeiro filho. Depois, outro. Parte da seriedade dele se foi quando eu nasci, dez anos depois, conta a minha mãe: "Pra você, ele contava histórias e fazia até as vozes". E eu me lembro disso. Ele sabia de cor a história da Branca de Neve, e a da Festa no Céu, as minhas preferidas. Assistia Mary Poppins infinitas vezes comigo, e me ensinou a dizer supercalifragilisticexpialidocious. Aos 4 anos ele me ensinou a ler. Me deu de presente o meu primeiro livro, o "Meu pé de Laranja Lima". Eu ouvia música com ele na sala, e a cada noite, ele me apresentava um intérprete diferente, e cantava "João e Maria" para eu dormir. Corrigia os meus trabalhos de escola, muitas vezes fazia-os para mim. Passávamos horas em livrarias, sebos e bancas de revista, e voltávamos cheios de coisas novas. Quando eu fiz 7 anos, ganhei dele " A Noviça Rebelde".Ele gravou para mim da TV, dublado, cortando os intervalos. Assisti 68 vezes, contadas através de risquinhos feitos num papel colado na capa do VHS. Depois, um dia, ele comprou o original, legendado. Anos depois eu ganharia o DVD. E depois a caixa da edição especial de aniversário. Eu fazia filmes, com as minhas amigas, e ele filmava, e depois editava, com trilha sonora e tudo. Aos domingos, assistíamos filmes em preto e branco, e ele dormia nos primeiros minutos. À noite, líamos Mistério Magazine, e comentávamos depois, no café da manhã. Dele, eu herdei a instrospecção, talvez um pouco da urgência, do perfeccionismo, do "é assim e pronto", do "tá errado". A minha mãe chama isso de Mendoncite. Mas eu gosto. A gente se fala por msn e e-mail todos os dias. Longos textos,sempre. Ele cantava sempre a mesma música para eu acordar, e me levou café na cama todos os dias até eu me casar. Hoje, ele traz pães de queijo e pendura numa sacola na porta do meu apartamento, aos domingos. Traz também o jornal. E às vezes ele me liga, avisando que vai passar algum filme que gostamos na televisão: "Só pra você saber"- ele diz.
Pai, "eu te amo" é muito pouco. Supercalifragilisticexpialidocious.